Nos ambientes organizacionais, percebemos que nem sempre os resultados e os comportamentos estão ligados apenas a funções, cargos ou competências técnicas. Existe uma camada mais profunda, muitas vezes invisível, que influencia dinâmicas, decisões e até mesmo o clima entre equipes. Essa camada é composta pelos papéis sistêmicos que cada pessoa ocupa, consciente ou inconscientemente, dentro do sistema organizacional.
O que está oculto no sistema, frequentemente dita o visível no dia a dia.
Ao identificar esses papéis, podemos trazer à luz padrões que se repetem, tensões não resolvidas e até mesmo oportunidades de transformação.
A diferença entre funções, cargos e papéis sistêmicos
Inicialmente, precisamos separar aquilo que é formal e aquilo que é tácito dentro das empresas. A função é o que está no contrato: analista, gestor, gerente, assistente. Já o cargo, geralmente, carrega em si uma hierarquia, uma responsabilidade objetiva alinhada ao organograma. Mas, e o papel sistêmico?
Papéis sistêmicos são posições emocionais, relacionais e energéticas que uma pessoa assume em função das necessidades inconscientes do grupo. Eles surgem naturalmente, muitas vezes em resposta a desequilíbrios, vazios ou dinâmicas familiares transferidas para o contexto profissional.
Por exemplo, um líder pode assumir o papel de “pai” do time, alguém pode atuar como “mediador silencioso”, outro como “rebelde que instiga mudanças”, e assim por diante. Estes papéis impactam fortemente o coletivo e a entrega dos resultados.
Por que os papéis sistêmicos surgem em organizações?
Na nossa vivência, tais papéis aparecem por motivos variados, como:
- Desequilíbrio de responsabilidade entre membros do grupo.
- Crenças inconscientes vindas da história de cada colaborador.
- Vazios deixados por líderes ausentes ou funções não preenchidas.
- Fidelidade a padrões familiares, transferidos para o trabalho.
No fundo, os sistemas buscam equilíbrio de forma natural, mesmo que inconsciente. Se alguém precisa se ausentar, outro tende a preencher o espaço, mesmo sem preparo ou autorização formal. E isso pode gerar tanto harmonia quanto conflitos.
Como observar sinais de papéis sistêmicos
Ao longo dos anos, percebemos alguns indícios que surgem quando papéis sistêmicos estão ativos dentro de equipes:
- Repetição de conflitos entre as mesmas pessoas, independentemente do projeto ou área.
- Sensação de exaustão ou sobrecarga em determinados colaboradores, não apenas pelo volume de trabalho.
- Dificuldade nas tomadas de decisão, mesmo quando as informações estão claras.
- Pessoas que acabam sempre assumindo a função de pacificadores, bombeiros ou “bodes expiatórios”.
- Ambientes onde temas delicados nunca são abordados abertamente, mas sempre circulam nos bastidores.
Essas manifestações podem parecer rotineiras, mas quase sempre indicam a presença de papéis ocultos atuando no sistema.

Etapas para identificar papéis sistêmicos
Em nossa experiência prática, seguimos um caminho sequencial para dar luz a esses papéis, sem julgamento ou rótulos. Sugerimos algumas etapas:
- Observar padrões de comportamento repetidos. Olhar além do discurso e perceber atitudes, preferências, resistência a mudanças, proatividade e apatia recorrente.
- Coletar relatos sobre sensações e percepções do grupo. Fomentar conversas seguras, onde membros possam expressar sentimentos e percepções sobre o ambiente e os colegas.
- Mapear as relações de influência. Quem influencia quem? Quem motiva o grupo? Quem bloqueia ou desacelera processos? Normalmente, estes são pontos-chave para papéis sistêmicos importantes.
- Analisar contextos de crise ou mudança. Mudanças organizacionais costumam evidenciar papéis ocultos, pois as pessoas tendem a agir de acordo com padrões pré-estabelecidos em situações de pressão.
- Utilizar ferramentas visuais. Mapas sistêmicos, constelações organizacionais ou até simples dinâmicas de agrupamento ajudam a enxergar além das funções oficiais.
A combinação dessas estratégias nos permite desvendar, pouco a pouco, quais forças estão verdadeiramente em jogo.
Exemplos de papéis sistêmicos frequentes em times
Veja alguns exemplos típicos que costumam surgir nos diferentes setores:
- O líder oculto: alguém sem cargo formal de chefia, mas cuja opinião move ou bloqueia o grupo.
- O pacificador: sempre intervém para evitar conflitos, mesmo à custa do próprio bem-estar.
- O bode expiatório: frequentemente responsabilizado pelos problemas, mesmo quando a origem é coletiva.
- O rebelde inovador: questiona processos e propõe mudanças, nem sempre bem recebido.
- O ausente presente: está fisicamente na equipe, mas não se integra ou se compromete de fato.
- O elo relacional: conecta pessoas de áreas diferentes, promovendo colaboração.
Esses papéis podem mudar ao longo do tempo, dependendo das necessidades do sistema e da transformação pessoal de cada membro.
Impactos dos papéis sistêmicos nos resultados
Quando não reconhecidos, tais papéis podem minar o desempenho da equipe e perpetuar dinâmicas que limitam inovação ou crescimento. Por outro lado, a identificação e o reconhecimento criam oportunidade para que todos ocupem sua função de forma mais madura e saudável.
O sistema só muda quando percebemos o papel que estamos exercendo.
Colaboradores que reconhecem seus papéis ganham liberdade para escolher diferente, sair do automático e contribuir de forma mais consciente para o coletivo.
Dicas práticas para times e líderes
Com base em nossa trajetória, sugerimos algumas práticas para identificar e transformar papéis sistêmicos com respeito e consciência:
- Estabelecer espaços regulares de diálogo aberto, sem julgamentos.
- Investir em formação sobre comunicação não violenta e inteligência emocional.
- Utilizar mediação externa em situações de impasse ou conflitos recorrentes.
- Mapear eventos críticos do passado da equipe que ainda geram impacto emocional.
- Reconhecer e acolher as diferentes histórias de vida que cada um traz para o grupo.

Conclusão
A identificação dos papéis sistêmicos é um processo de refinamento da escuta, do olhar e da sensibilidade. Quando damos esse passo, ampliamos a consciência sobre o que realmente está em jogo no cotidiano organizacional. Transformar a dinâmica de uma equipe exige mais do que alterar organogramas ou processos, requer atenção ao que é invisível, mas altamente influente.
Investir nesse olhar transforma não apenas resultados, mas eleva as relações e a experiência de pertencimento em cada equipe. Afinal, toda organização será sempre um sistema vivo, em constante ajuste. Perceber e reconhecer os papéis é o início de mudanças profundas e sustentáveis.
Perguntas frequentes sobre papéis sistêmicos em organizações
O que são papéis sistêmicos nas organizações?
Papéis sistêmicos são posições que pessoas assumem, de maneira consciente ou não, dentro de um grupo de trabalho, influenciando comportamentos, decisões e o clima organizacional. Eles vão além das funções e cargos formais, estando ligados a necessidades, padrões emocionais e dinâmicas herdadas do próprio sistema organizacional ou das vivências individuais dos colaboradores.
Como identificar papéis sistêmicos na empresa?
Podemos identificar papéis sistêmicos observando padrões de comportamento recorrentes, relações de influência, dinâmicas de conflito, sobrecarga emocional e situações em que determinados colaboradores sempre desempenham funções não oficiais, como mediador, bode expiatório ou apoiador silencioso. O diálogo aberto e o mapeamento das relações ajudam a trazer esses papéis à tona.
Por que entender papéis sistêmicos é importante?
Conhecer os papéis sistêmicos permite uma gestão mais consciente das equipes e dos desafios recorrentes, promovendo ambientes de maior colaboração, pertencimento e inovação. Isso evita que padrões disfuncionais sejam perpetuados e abre espaço para novos caminhos dentro da organização.
Quais são exemplos de papéis sistêmicos?
Entre os papéis sistêmicos mais comuns, destacamos o líder não formal, o pacificador, o bode expiatório, o rebelde, o elo relacional e o ausente presente. Cada um tem impacto direto sobre as interações, decisões e resultados do grupo.
Como os papéis sistêmicos influenciam equipes?
Os papéis sistêmicos moldam o comportamento do grupo, influenciam a comunicação, a confiança e a motivação, podendo tanto impulsionar quanto limitar as conquistas e o bem-estar coletivo. Quando reconhecidos e equilibrados, contribuem para ambientes mais saudáveis e equipes mais ajustadas.
